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(Millôr Fernandes)

terça-feira, 19 de maio de 2026

Rage bait —‘Dona Maria não é indignação, é discurso de raiva’, diz especialista sobre perfil contra Lula derrubado pela Justiça Eleitoral

Terça, 19 de maio de 2026

Rage bait
‘Dona Maria não é indignação, é discurso de raiva’, diz especialista sobre perfil contra Lula derrubado pela Justiça Eleitoral

Para Maurício Ramos, a extrema direita trabalha muito bem o vitimismo; cabe à esquerda buscar o discurso de esperança

Brasil de Fato

Perfil de Dona Maria, criada com IA, foi retirado do ar pela Justiça Eleitoral | Crédito- Reprodução/Instagram

No último sábado (16), o perfil Dona Maria, uma senhora indignada construída por inteligência artificial, foi derrubado do Instagram. Seus vídeos tinham discursos como esse:

“Tô lendo aqui a manchete do jornal. A conta de luz vai disparar em 2026 com a tal desculpa de clima seco e de aumento dos subsídios. Aumentar a luz desse jeito é querer tirar o sangue de quem já não tem nem saliva. No meu tempo, isso aí se chamava assalto à mão armada”.

Com 798 mil seguidores na plataforma, Dona Maria, uma personagem bem semelhante a muitas tias, mães ou avós, sempre teve um alvo preferencial: o governo Lula.

Por isso, a Federação Brasil da Esperança, que reúne PT, PV e PCdoB, entrou com ação na Justiça Eleitoral para suspender o perfil, alegando o uso de inteligência artificial e deepfake para fazer propaganda eleitoral antecipada. O perfil nasceu em junho de 2025, criado por Daniel Cristiano dos Santos, de 37 anos, que se diz motorista de aplicativo.

Nas redes sociais, Dona Maria funciona, muito bem, como uma espécie de rage bait (na tradução livre, “isca de raiva”), explica o professor de Estratégia e Liderança Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) Maurício Ramos ao BdF Entrevista.

“A gente não está falando de indignação. A gente está falando de rage bait, né? É o discurso de raiva, de ódio. A raiva, ela é diferente, porque a raiva não faz a pessoa buscar informação. Ela não se abre. Na verdade, muito pelo contrário, ela se fecha e ela é levada imediatamente à ação. Qual é a ação aqui no âmbito digital? É a interação, é o engajamento, é o compartilhamento, é a divulgação dessa mensagem. Então a gente não está falando de transparência saudável, a gente não está falando de algo produtivo. Não é um debate de ideias, não é uma busca por informações, muito pelo contrário. É raiva cega”, diz.

E qual seria a contraposição para raiva cega, segundo a análise de Ramos? “A contraposição lógica, emocional, da raiva, do rage bait, é a esperança. A esperança também é uma emoção que te leva à ação, que te abre a novas informações”, diz o professor, que considera que a esperança também é um sentimento que engaja nas redes sociais, mas com um tempo maior e exigindo uma busca de informação.

Com as eleições se aproximando, Ramos aposta na expansão do uso de IA, por ter se tornado mais acessível e barata. Para ele, não é exatamente a IA o problema principal, mas o que ela pode trazer junto: fake news.

“Eu acho que essas tecnologias vieram para ficar, vão fazer parte do jogo. Os novos partidos, candidatos, eles têm que aprender a usar, a manipular, obviamente de forma legal. Mas o que precisa combater de forma continuada é o uso das fake news.”

A extrema direita tem usado dois tipos diferentes de narrativas, diz Ramos. O primeiro é o uso do vitimismo, que ele exemplifica com as imagens divulgadas das idas do Bolsonaro ao hospital. O segundo é a cooptação, o roubo do debate sobre liberdade de expressão, colocando-se também como vítima de um ataque à liberdade.

Entre as outras ferramentas da inteligência artificial que deverão ser usadas, cita a hipersegmentação do eleitorado para criação de peças publicitárias direcionadas. “A segmentação é a pessoa. Quem é essa pessoa? Vou dar um discurso preparado, moldado para ela”, diz.


Editado por: Thaís Ferraz


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Esta matéria foi postada originalmente no Brasil de Fato de 18 de maio de 2026