Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)

sábado, 15 de outubro de 2011

Nosso bote salva-vidas

Sábado, 15 de outubro de 2011 
Por Ivan de Carvalho
Até aqui, não há sinais de arrefecimento da crise financeira internacional, melhor dizendo, global. O Senado americano acaba de rejeitar um plano que o governo Obama apresentou e considerava importante para reduzir o desemprego crescente, oferecendo estímulos à economia. Os republicanos não gostaram da maneira como o plano do presidente mexia nos impostos.
            Aliás, como já ficou evidente em episódios bem mais dramáticos, a exemplo do acordo para aprovação do aumento do limite de endividamento da União, o Partido Republicano não está com um mínimo de boa vontade para facilitar as coisas para Barack Obama, que é candidato à reeleição pelo Partido Democrata. Assim, as grandes decisões econômicas e financeiras que o governo tem de tomar precisam passar por um Senado de maioria republicana e, portanto, hostil.
            Essa pendência intermitente, quase permanente, reduz em grande medida necessidades financeiras e econômicas em conveniências políticas e torna inviável a tomada das decisões que seriam as mais eficazes. Esse ambiente politicamente hostil vai durar até as eleições presidenciais e existe quase inteiramente por causa delas. Assim, a crise na economia se agrava, a recessão se aprofunda e o tempo necessário a uma recuperação se dilata.
            Na Europa, o outro foco central da crise, a situação se deteriora dia a dia. A semana que termina hoje foi péssima. Governos dos países mais ameaçados pela insolvência, a exemplo da Grécia, Espanha, Itália, Portugal têm aumentado seus níveis de riscos, segundo as avaliações de celebradas agências de classificação de riscos. Quando não são os países mais aflitos com suas dívidas que tomam as ferroadas dessas agências, são bancos médios e pequenos de países que têm melhor musculatura financeira, a exemplo de Suiça, França, até Alemanha.
E grandes bancos alemães avisam logo que não estão dispostos a ajudar os pequenos em dificuldades. Que vão estes à falência – arrastando ao prejuízo tanto os acionistas como os credores e depositantes – ou que os governos se virem para salvá-los, o que significa sacrificar o conjunto das sociedades nacionais.
Quais são os culpados dessa esculhambação geral que estão chamando de crise? Os governantes com suas guerras, incompetências e corrupções, as instituições financeiras com sua ganância irresponsável, os produtores americanos e europeus que exigem subsídios bilionários, sangrando os cofres públicos.
E nisso tudo, como está o Brasil? Está com inflação acima do limite superior da meta oficial, apesar de queda abrupta da atividade econômica, que se registra ultimamente, e da queda dos preços das commodities, o que, misteriosamente, não faz baixar os preços no mercado interno, até ao contrário.
E qual é o nosso bote salva-vidas? O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse nesta semana que a situação do Brasil na crise global vai depender da China, “hoje nosso maior parceiro comercial”. Realmente, há muito foi-se o tempo em que eram os Estados Unidos. O problema é que não se passaram 24 horas entre a declaração do ministro e a divulgação de informações sobre uma nova retração no crescimento do PIB chinês, que já encolhera na crise de 2009. Nosso bote salva-vidas pode estar afundando também. 
Parece que Mantega estava querendo avisar que “a coisa” vai ficar preta. Em 2012 haverá eleições, mas, talvez felizmente para o governo, são apenas municipais. Digo talvez porque em 2014, quando as eleições são gerais, nada garante que “a coisa” não esteja pior ainda.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia deste sábado.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano