Domingo, 12 de maio de 2013
Paulo Metri
Conselheiro do Clube de Engenharia
Ao que tudo indica, o que ainda resta de povo brasileiro
independente morrerá nos dias 14 e 15 de maio próximos. Como um povo sem
independência não passa de gado pacífico e, para não deixar tudo para a
última hora, começo a preparar o seu obituário. Depois do nome do
falecido, “Povo Brasileiro Independente”, vem a mensagem fúnebre:
“Com muita tristeza, cumpre-nos o
infeliz dever de comunicar a passagem do povo brasileiro independente.
Doloridamente, informamos que o enfermo vinha, há anos, sofrendo de
doença drenadora da sua energia vital. No passado, a doença era
conhecida como ‘entreguismo’ e, hoje, é mais reconhecida como
‘neoliberalismo’ acoplado a ‘globalização’. Nela, as veias da sociedade
estão abertas e conectadas a sanguessugas externas, que drenam as
riquezas naturais e os lucros obtidos no país”.
“Este povo descende de índios
guerreiros, brasileiros originários, que tinham o pecado de serem
atrasados tecnologicamente. Suas terras foram invadidas, há 513 anos,
por usurpadores europeus e brancos. Estes, sem escrúpulos para dominar,
mataram os que não aceitavam serem escravos, não importando se eram
praticamente todos. Não contentes, trouxeram povos da África para
trabalhar à força e, assim, se fartarem com este capitalismo cruel.
Posteriormente, outros imigrantes, forçados por guerras e pela fome de
outras terras, aqui desembarcaram para contribuir com sua força de
trabalho para a então insipiente transferência de mais valias. Então,
esta mescla de povos de diversas origens compõe o brasileiro, que tem
sido secularmente explorado por locais e estrangeiros. Durante sua
existência, o brasileiro tem tido períodos de conquista de graus de
independência e, infelizmente, outros de perda”.
“Com a chegada da modernidade, a
sofisticação e a desfaçatez do sistema de exploração atingiram seus
auges. Foi criado um arcabouço jurídico e institucional dissimulado, em
que a principal drenagem de sangue do paciente se dá para o exterior.
Entretanto, graças à sofisticação, não existem mais grilhões,
pelourinhos e açoites, para se ter súditos servis, bastando somente
existir canais de mídia, que desinformam e criam alienados facilmente
manipuláveis. Ajudam a manipulação, também, os políticos, representantes
dos usurpadores, que administram o sistema, permitindo o sangue do
moribundo se esvair. A escravidão atual se estabelece pela negação à
instrução e à informação correta, que permitiriam existir a cidadania”.
“O pouco que restava do povo brasileiro
independente deu seu último suspiro nos dias 14 e 15 de maio de 2013,
quando aconteceu a décima primeira rodada de leilões de blocos do
território nacional para exploração de petróleo, a maior doação de
patrimônio público a grupos estrangeiros já promovida pelo governo
brasileiro, desde nossa independência. Não foram incluídos os anos como
colônia, porque não se sabe o valor exato do ouro roubado por Portugal.
Estima-se que o super-lucro, acima de um lucro normal, das empresas
estrangeiras com esta rodada será de US$ 675 bilhões, a serem realizados
em 25 anos, valor que nenhum governante poderia doar, mesmo havendo a
pequena compensação para nosso povo, que são os royalties”.
“O cortejo fúnebre será observado em
cada petroleiro que encostar em uma plataforma, na nossa costa, e zarpar
com seu casco cheio do nosso petróleo indo para algum lugar no
exterior, durante 25 anos. Ele deixará aqui a falta de recursos para
educação, saúde, saneamento, habitação, transporte, ciência e
tecnologia, meio ambiente e tudo mais que irá representar um baixo IDH”.
Este obituário está pronto. Temo pelo pior
que pode acontecer nos dias fatídicos 14 e 15. Mas ainda tenho grande
esperança que a presidente Dilma irá reconhecer os dados contundentes
desta entrega e irá cancelá-la. Alerto a presidente que o presidente da
Shell não lhe disse, na recente audiência concedida, que, se ganhar
blocos, não irá comprar plataformas no Brasil, não encomendará
desenvolvimentos aqui e, como consequência, gerará muito poucos empregos
no país, levará toda a produção do nosso petróleo para o exterior, não
construirá refinarias e oleodutos aqui, e não venderá o petróleo para a
Petrobras. Enfim, não ajudará o abastecimento do Brasil, nem o
desenvolvimento brasileiro. Contudo, pagará os 10% de royalties, e só
não pagará mais impostos porque a lei Kandir o impede.
É interessante notar o mundo fictício de
ênfases tendenciosas, criado pela mídia. Sobre o mensalão, foram dadas
as mais variadas cifras como prejuízo infringido à nação, dependendo da
fonte da informação. Mas nenhuma delas, por pesquisa na internet,
suplantou o valor de R$ 100 milhões. Pois bem, ouvimos sobre este caso
durante uns três meses, todos os dias, cobertura jornalística farta.
Este valor é cerca de 13.000 vezes menor que o atual roubo do petróleo
e, no entanto, a mídia divulga praticamente nada sobre esta rodada.
Proveito para dar um recado aos
representantes das petroleiras estrangeiras. A revogação das concessões
desta 11a rodada, se ela ocorrer, em ano futuro, é algo possível, com a
alegação verdadeira de que o povo não foi consultado sobre a realização
da rodada e, se fosse esclarecido e indagado, teria negado sua
realização. O contra-argumento, que os contratos de concessão são atos
jurídicos perfeitos e, por isso, devem ser respeitados, poderá não
prevalecer, à medida que o sistema escolhido para expressar a vontade
popular foi imperfeito.
Fonte: http://paulometri.blogspot.com.br/
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