Sábado, 13 de fevereiro de 2016
Do Correio da Cidadania
www.correiocidadania.com.br
Por Fernando Silva*
O ano de 2016 mal começou e as perspectivas são de manutenção e aprofundamento das crises abertas em 2015.
No âmbito da crise política, embora 2015 tenha acabado com um certo
esvaziamento da tese do impeachment, este ano começa com a Operação Lava
Jato disparando tiros diretamente contra o ex-presidente Lula.
Sejam verdadeiras ou não as acusações, o fato é que o promíscuo
caminho do balcão de negócios entre alta cúpula do partido e do governo
com as empreiteiras, além de ter destruído moralmente o PT, vão manter
em alta a crise política, o desgaste e o “empurra-empurra” entre
governo, partido e instituições.
Entre outras razões, porque Eduardo Cunha dá demonstrações de força
na volta do recesso parlamentar e sinaliza que vai resistir, e muito,
aos justos clamores pelo seu afastamento.
Mas é possível que não venham desta crise os principais focos de tensões e instabilidade no ano.
O início de 2016 mostrou, já de forma dramática, que vamos a um
aprofundamento e agravamento das crises econômica e social. Já era
evidente o esgotamento do modelo de suposto neodesenvolvimentismo,
especialmente com a recessão estabelecida em 2015, o início do ajuste do
segundo mandato do governo Dilma e os crimes e desastres
socioambientais, como o da Samarco em Mariana, entre outros fatores;
2016 parece ser o da agonia, quando se projeta um segundo ano
consecutivo de dura recessão, colapso nos serviços públicos, manutenção
da política de ajuste neoliberal e retirada de direitos.
São vários os fatores que indicam o aprofundamento da crise
econômica. Os primeiros deles são externos: a desaceleração
relativamente rápida da economia chinesa com abalos importantes no
mercado de ações e a queda drástica no preço das commodities,
especialmente petróleo e minério de ferro.
De outro lado, a instabilidade política e econômica no Brasil, a alta
dos juros no mercado norte-americano e a valorização do dólar sinalizam
uma perspectiva de grande fuga de capitais em 2016 e queda de
investimentos.
Dessa forma, o ano de 2016 começou com números assustadores no Brasil
em relação a desemprego, queda da produção industrial, inflação, queda
da renda do trabalhador, inadimplência.
A perspectiva do ano é fechar com quase 10 milhões de desempregados –
já são neste momento 9,1 milhões (dados do IBGE) -, com inflação em
alta, como se viu em janeiro no preço dos alimentos e das tarifas
públicas, e queda na renda (rapidamente corroída pela inflação), num
país que já tem 59 milhões de inadimplentes (dados da Serasa Experian).
Tensão social e lutas de resistência
Este cenário permite um diagnóstico de muita turbulência, tensão e possivelmente muitas lutas sociais.
A resposta do governo Dilma não será nenhuma inflexão ou virada na
sua política econômica, entre outras razões porque para continuar a
esvaziar a tese do impeachment a lógica é de mais concessões ao grande
capital. Que ninguém se iluda com medidas ultrapontuais, como a não
elevação da taxa de juros na última reunião do Banco Central.
Nem precisa, pois os patamares de arrocho na economia já são
altíssimos nos últimos anos, como, por exemplo, as altas de juros, que
contribuíram para os mais de 500 bilhões de reais acrescidos na dívida
pública em 2015, para o estrangulamento do crédito, para a inadimplência
e queda do consumo.
Onde se verifica mais nitidamente o sentido de aprofundamento do
ajuste da parte do governo Dilma é a retomada com força da pauta da
reforma previdenciária, uma das exigências centrais do grande capital.
Outro exemplo? O dramático colapso nos serviços públicos. As
explosivas epidemias de dengue, ao lado da Chikungunya e do Zika, ajudam
a revelar o sucateamento da saúde pública, o despreparo, a falta de
investimentos em recursos materiais e humanos, o flagelo que significa o
atendimento em um hospital público.
Um parêntese. As epidemias que assolam o país revelam também outros
dois desastres: o enorme atraso do saneamento público (a principal razão
pelo alastramento e ampliação de epidemias e novas doenças, e não o
mosquito), e os fatores “humanos”, que contribuem decisivamente com as
mudanças climáticas e o aquecimento global, dentre os quais o Brasil com
seu modelo predatório-extrativista tem dado uma enorme contribuição.
Alguns cenários e perspectivas
Se é certo que as eleições municipais deste ano que deverão ser um
dos afluentes a canalizar o mau humor e insatisfação popular, este
aprofundamento de crises pode ser um desaguadouro de muitas e novas
lutas sociais.
Lembremos que 2015 foi marcado também por muitas lutas como greves,
ocupações urbanas, protestos como o as passeatas e marchas de mulheres, a
luta estudantil, como a vitoriosa onda de ocupações de escolas
secundárias em São Paulo contra o governo Alckmin, alastrada pelo estado
de Goiás etc.
Este ano começou com representativas manifestações contra o aumento
de tarifas em diversas capitais, greves contra demissões e por melhores
salários, como dos aeronautas e aeroviários. Esta dinâmica geral de
multiplicidade de lutas e atores sociais é um traço desde as jornadas de
junho.
A ofensiva do capital pela retirada de direitos vai também se
intensificar ao lado da brutalidade da repressão, pois em tempos de
crise é sempre esta a resposta dos dominantes, e com inestimável
contribuição (para eles) do governo Dilma e do PT, com sua política
macroeconômica e covardia diante das pressões da direita tradicional.
As crises econômica e social naturalmente incidem sobre os rumos da
crise política, embora os impasses institucionais permaneçam e caminhem
para as “soluções” eleitorais.
A tendência mais geral para as eleições de 2016 é que a onda de
desgaste com o governo Dilma e contra o PT favoreça, em geral, as
candidaturas mais à direita. Mas de outro lado a crise geral, política e
econômica, compromete e fragiliza todo tipo de governo, inclusive os da
base da direita tradicional, que não estão fora dos escândalos de
corrupção e nem dos efeitos da crise econômica e nos serviços públicos.
Portanto, uma frente de partidos da esquerda socialista poderá, no
terreno das eleições, fortalecer e ampliar uma alternativa de esquerda
ao caos que se avizinha desta agonia do modelo.
O mais importante será apostar que uma nova onda de lutas sociais de
resistência seja forte o suficiente para impedir o avanço da retirada de
direitos e contribua para a construção de uma outra alternativa de
país, forjada também no calor das lutas sociais.
*Fernando Silva é jornalista e membro do Diretório Nacional do PSOL.
A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania
