Terça, 14 de julho de 2015
Por Mauro Santayana
http://www.maurosantayana.com
Relatório
divulgado há alguns dias pelo Ministério da Justiça mostra que a população
prisional brasileira no primeiro semestre de 2015 chegou a 607.731 indivíduos,
o que representa um aumento de 575% com relação a 1990, ou seja, 6,7 vezes
maior, o que transforma o Brasil no quarto país do mundo em número de
prisioneiros, depois dos EUA, da China e da Rússia.
Para essa
população, o país tem 376.669 vagas. Um déficit de mais de 231 mil vagas. Há
prisões em que há 1.6 presos por vaga, e em 25% delas, há mais de 2 presos por
vaga - considerando-se que há lugares em que o preso dispõe, para passar anos,
de apenas 70 centímetros quadrados - em um sistema massacrante de
compactação, comparável apenas às masmorras medievais e às câmaras de gás dos
campos de concentração nazistas.
Destes
presos, entre 60 e 40%, dependendo da estado, estão na prisão ilegalmente, sem
julgamento, ou sem culpa formada, por mais de 90 dias. Muitos são réus
primários, foram presos sem flagrante ou por contravenções como a posse de
substâncias como anfetamina misturada a pó de mármore automaticamente
classificada, no momento da prisão, como cocaína, ou de pequena quantidade de
maconha ou crack, sendo, por isso, quase que imediatamente transformados em
traficantes.
A imensa
maioria deles não tem assistência jurídica e alguns podem passar anos presos,
nessa situação, arriscando-se a morrer sem culpa oficialmente formada, já que a
assistência médica é péssima ou inexistente nas instalações para presos
teoricamente provisórios, as condições são insalubres (detentos com doenças
contagiosas, como aids ou tuberculose dividem as mesmas celas superlotadas com
outros presos saudáveis) e a violência grassa, com estados, como o Maranhão, em
que o número de mortes na prisão chega a quase 200 por 10.000 prisioneiros, um
dos mais altos do mundo.
Com relação
à população prisional por unidade da Federação, São Paulo é o estado com maior
número de presos: são 219.053 pessoas privadas de liberdade, ou seja, 36% da população
carcerária do país. O estado é seguido de Minas Gerais, com mais de 61 mil
presos, e do Rio de janeiro com mais de 39 mil.
Prende-se
muito, no Brasil, prende-se mal, no Brasil, julga-se mal - no lugar da
recuperação do detento há uma cultura punitiva e vingativa em amplos setores da
magistratura, e o uso de penas alternativas é quase inexistente, o que evita
que se encontrem outros caminhos, para a solução do problema, que não a
aplicação disseminada e arbitrária do encarceramento.
E o pior de
tudo é que isso não resolve nada.
O número de
crimes aumentou, nos últimos anos, na mesma proporção em que aumenta o número
de prisões, que cresce a uma das maiores taxas do mundo.
Levados
pelo sentimento de injustiça e de total ausência de dignidade, decorrente do
abandono pelo sistema judicial e em última instância pelo próprio Estado que os
colocou atrás das grades, presos que entram por crimes que poderiam ser punidos
sem a privação de liberdade, se transformam em feras.
Feras
alimentadas pelo ódio multiplicado durante meses, anos, por detenções
equivocadas que se transformam com o decorrer do tempo em prisões
ilegais. Um sentimento agravado, cristalizado, pela cultura da
retaliação, da marginalidade e da violência aprendida com presos mais experientes,
ou comprovadamente condenados por crimes mais graves.
Este é o
Estado-Prisão.
Mas em
nosso país existe, também, o Estado-Coveiro.
O Brasil
não é apenas o quarto maior país do mundo em número de presos, boa parte deles
em situação irregular, mas também um dos que mais matam.
Entre 2005
e 2009, por exemplo, apenas a Polícia Militar do Estado de São Paulo, com uma
população oito vezes menor que a dos Estados Unidos, matou quase 7% pessoas a
mais do que todos os agentes de segurança federais, estaduais e municipais
norte-americanos somados, em casos classificados como de resistência seguida de
morte.
Isso,
embora a proporção de policiais mortos por bandidos em situação de confronto
seja, no Brasil, historicamente bem menor que a dos EUA, diante do número
de cidadãos mortos pela polícia, muitos deles sem terem alguma vez na vida
passado por uma delegacia.
Ainda
tomando como parâmetro o Estado de São Paulo, o mais populoso do país e o que
dispõe, devido a uma lei de 1995, de estatísticas mais confiáveis, o número de civis
mortos em decorrência de ação policial só não foi maior do que a de civis
feridos, entre o ano 2.000 e 2010, no ano de 2005, o que quer dizer que ao
contrário de outras polícias do mundo, o policial brasileiro não atira para
parar, imobilizar ou ferir quem deveria prender, mas quase sempre para matar,
mesmo que, em muitos casos, o suspeito não esteja armado, e apenas em fuga -
não porque tenha cometido algum crime - mas porque teme a possibilidade de ser
espancado ou morto pela polícia, principalmente quando mora na periferia
(vídeo).
No mesmo
período pôde ser observada, como já dissemos, uma enorme desproporção entre o
número de policiais mortos e de supostos "bandidos" mortos em
eventual situação de confronto.
Mesmo considerando-se o uso de equipamento como coletes à prova de balas, e o treinamento profissional recebido, agride a lógica e o senso comum que, ao enfrentar, supostamente, bandidos armados, policiais matem mais de 15 cidadãos para cada policial caído.
Em qualquer força policial do mundo, quando esse número passa de dez, ou os policiais são super-homens, desses de cinema, que abatem 15 "inimigos" cada um por filme, ou estão, certamente, executando civis desarmados, e simulando, para justificar essas mortes, situações de enfrentamento.
Mesmo considerando-se o uso de equipamento como coletes à prova de balas, e o treinamento profissional recebido, agride a lógica e o senso comum que, ao enfrentar, supostamente, bandidos armados, policiais matem mais de 15 cidadãos para cada policial caído.
Em qualquer força policial do mundo, quando esse número passa de dez, ou os policiais são super-homens, desses de cinema, que abatem 15 "inimigos" cada um por filme, ou estão, certamente, executando civis desarmados, e simulando, para justificar essas mortes, situações de enfrentamento.
Além disso,
há que considerar-se que boa parte dos policiais mortos não o são durante o
serviço, mas quando estão de folga, e se envolvem em situações de conflito em
bares, churrascos, acidentes de trânsito, incidentes com vizinhos, valendo-se
de sua condição de policiais, e de estarem armados, e o fazem muitas vezes em
confronto com outros policiais em situação parecida, que podem ou não pertencer
à sua mesma corporação ou organização, principalmente quando um e outro não se
identificam.
Em caso
recente, ocorrido em Minas Gerais, em novembro do ano passado, um policial
corrupto que dava escolta a traficantes e estava, no ato, recebendo
20.000 reais em propina, matou um colega da polícia civil que estava seguindo
os traficantes. Em outra situação, em abril deste ano, também na Grande Belo
Horizonte, uma policial civil, escrivã, foi com o marido verificar a origem de
tiros ouvidos perto de sua casa, e se deparou com um grupo de policiais
militares à paisana fazendo tiro ao alvo em uma mata. Segundo ela, eles teriam
"mexido" com a escrivã, que pediu que se identificassem ao ver que
estavam armados. No tiroteio que se seguiu, a policial foi baleada na barriga e
o marido morreu, atingido por oito tiros.
Em São
Paulo, em Ibiúna, um policial militar foi morto pelo irmão de uma adolescente
vizinha, depois de convidá-la para um churrasco em sua casa e levá-la
para a sua cama.
E ficou
famosa a cena de um policial goiano, que, em pleno trânsito, filmado por
câmeras de segurança, desceu do carro, espancou e algemou a namorada, matando-a
a tiros, e depois atirou em si mesmo, tentando o suicídio.
Como vimos,
as consequências da violência policial vão muito além da lógica maniqueísta dos
filmes de "mocinho" e "bandido".
O policial
que é violento com um suspeito desarmado, tem uma chance maior de ser violento
também com a mulher ou a namorada, com os filhos, com a família, com os
vizinhos, com outros colegas policiais que ele não sabe, circunstancialmente,
que são policiais, e, de modo geral, com a própria comunidade em que vive.
Finalmente,
há outro parâmetro que diz respeito ao grau de letalidade da polícia
brasileira, segundo estudo de Luiz Flávio Gomes e Adriana Loche: o número de
mortos por policiais, com relação ao total de homicídios dolosos. No ano de
2010, esse número foi de 11,48% no estado de São Paulo, ou seja, de cada 100
pessoas que morreram assassinadas, praticamente 12 foram mandadas para o
cemitério por ação da polícia.
Mesmo com
esse número brutal, boa parte da população ainda acha normal, no Brasil, que a
polícia mate. Como se de cada 100 pessoas assassinadas, 12 fossem marginais que
pudessem automaticamente morrer sem sequer ser julgados.
E que mate
principalmente jovens.
No país em
que se discute a redução da maioridade penal, dados do Fundo das Nações Unidas
para a Infância - UNICEF - revelam que, desde a 1990, quando foi aprovado o ECA
-p Estatuto da Criança e do Adolescente, o número de assassinatos de
brasileiros com menos de 18 anos passou de 6 mil para 10.5 mil por ano, ou 28
por dia.
Desses pouco
mais de 10.000 jovens - revelou esta semana a Comissão Parlamentar de Inquérito
da Violência contra Jovens Negros e Pobres - 2.200, ou mais de 20%, morreram
suposta situação de confronto com a polícia.
Dos
adolescentes que não morrem por causas naturais, 36% são assassinados, sete
vezes mais que a população em geral, em um índice que só é superado pela
Nigéria.
Ser homem
aumenta em 12 vezes a possibilidade de morrer dessa forma nessa faixa etária, e
os negros morrem mais três - quase quatro - vezes mais que do que os brancos.
A televisão
contribui diretamente para isso, com a disputa cotidiana, de programas ditos
"policiais", por audiência, em que jornalistas competem também em seu
empenho de justificar e defender a violência da polícia.
Nesses
programas não existem suspeitos, nem a presunção de inocência, mas, a priori
"bandidos".
Neles,
também, os policiais quase nunca "erram" ou se equivocam. A maior
parte de suas ações é elogiada, enaltecida, mesmo quando o policial agiu de
forma flagrantemente irregular, como no caso recente em que um policial militar
atirou, diante das câmeras, em dois adolescentes já deitados no chão e
dominados, que, antes, em fuga em uma moto, haviam jogado em sua direção um
capacete.
A apologia
da violência do Estado, no Brasil, está profundamente arraigada em nossa
sociedade, e leva, a cada nova eleição, mais representantes da corporação para
as câmaras municipais, para os legislativos estaduais e o Congresso Nacional,
já que os governos, apesar do aumento permanente da criminalidade, parecem não
ter outra resposta do que a contratação constante de mais policiais e
equipamentos, em um processo perene e ininterrupto que já ameaça o orçamento de
muitas unidades da federação.
A sociedade
- e o próprio governo - parecem não entender que para cada dois presos sem
julgamento, um deles sairá da cadeia transformado em bandido, e que para cada
"bandido" morto em duvidosa situação de conflito, muitos de seus
filhos se levantarão, quando crescerem, para combater o Sistema e a polícia, em
um círculo vicioso que só pode levar à morte de cada vez mais civis, e de cada
vez mais policiais.
É preciso
entender que a saída dessa pandemia de violência só pode estar na reformulação
de uma legislação penal, infelizmente, cada vez mais conservadora e anacrônica,
com a aplicação real de leis como a que impede a prisão de usuários de drogas
"ilícitas", e, no limite, a legalização de certas algumas delas,
passando seu controle para o estado, no lugar de deixar o dinheiro nas mãos do
tráfico e de corruptos de todos os tipos que por ele são alimentados.
“O
proibicionismo é um modelo macabro, que produz mortes principalmente de pessoas
pobres, que não têm voz e morrem como baratas no Brasil inteiro”, afirmou, em
novembro do ano passado, em um seminário denominado “Drogas: Legalização +
Controle”, o coronel reformado - ex-comandante de Batalhão e ex-chefe do Estado
Maior Geral da PM do Rio de Janeiro - Jorge da Silva, informa o Portal da
Organização Ponte - Segurança Pública, Justiça e Direitos Humanos.
“Estou muito
cansado de ver policiais morrendo”, disse também, na mesma ocasião, o
detetive-inspetor Francisco Chao, que atua há 19 anos na Polícia do Rio, com
passagem por unidades como a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) e a
Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE). “Eu gostaria muito, antes de me
aposentar na polícia, e faltam dez anos, de ver o fim da insanidade dessa
guerra, que não interessa à polícia e nem à sociedade.”
É preciso
“falar claramente sobre a necessidade da legalização e consequente
regulamentação da produção, do comércio e consumo de todas as drogas”, explicou
o delegado Orlando Zaccone, na abertura do mesmo evento, organizado pela LEAP -
Associação dos Agentes da lei Contra a Proibição - Brasil e o Fórum Permanente
de Direitos Humanos da Escola de Magistratura do Estado do Rio de Janeiro.
A LEAP -
também segundo a matéria - soma 236 membros, dos quais 167 são policiais, a
maioria deles da ativa, do Distrito Federal e mais 21 estados brasileiros, e
conta com mais 1250 apoiadores. “Nós defendemos a legalização de todas as
drogas. E sabem por quê? Porque nós somos ‘maus’”, ironizou Zaccone. “E somos
‘maus’ porque os ‘bons’ estão produzido um dos maiores genocídios da História”.
Não há
crime que possa ser executado por alguém que cheirou cocaína, fumou um baseado
ou uma pedra de crack, que não possa ser cometido por alguém sob o efeito de
uma garrafa de uísque ou de cachaça, e a publicidade de bebida continua
presente nos mesmos meios de comunicação que vociferam, todos os dias, contra a
violência, enquanto nossos jovens, de todas as classes, começam - inspirados
pelos comerciais de cerveja na tv - a beber cada vez mais cedo, como primeiro
passo e porta de entrada para o consumo de todo o tipo de droga, a começar pelo
cigarro, a que mais mata legalmente.
A polícia
brasileira não é melhor nem pior do que qualquer outra polícia do mundo, mas
precisa investir mais em inteligência e menos na força bruta e na violência
desatada no combate ao crime. Mais no policiamento preventivo que no ostensivo,
que acaba, infelizmente, transformando uma minoria de policiais em
desequilibrados impunes, que, no lugar de servir a população, ameaçam,
intimidam, matam e torturam.
Enquanto
isso, soluções estapafúrdias procuram aumentar, no lugar de diminuir, o fosso
que separa a polícia dos outros cidadãos, transformando o agente de segurança
em uma espécie de casta superior, diferente e intocável.
Acaba de
ser sancionada a lei que transforma em crime hediondo a lesão corporal e o
assassinato de policiais, ou de seus parentes até o terceiro grau.
Essa é uma lei equivocada, que dificilmente diminuirá a morte de policiais.
Essa é uma lei equivocada, que dificilmente diminuirá a morte de policiais.
Primeiro,
porque ela quebra o princípio da isonomia.
É preciso
que se entenda, que quando morre um policial, morre um pedaço de toda a
Humanidade, e o mesmo ocorre quando morre, em qualquer lugar do mundo, qualquer
outro ser humano.
Em segundo
lugar, porque se queremos que um policial, um soldado, um bombeiro, até mesmo
com seu próprio risco, salve uma vida, precisamos que ele aprenda que a
vida de qualquer ser humano que ele jurou defender vale, no mínimo - em face do
heroico sentido do dever - o mesmo que a sua.
E
finalmente porque, infelizmente, hoje, em muito lugares, a morte de policiais é
um troféu altamente cobiçado. E essa lei pode ter um efeito contrário. O de
aumentar o valor do prêmio por suas cabeças.
