Sábado, 15 de outubro de 2011
“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer”. E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”. Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo. Leia o pronunciamento de Naomi Klein em Nova York.
“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer”. E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”. Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo. Leia o pronunciamento de Naomi Klein em Nova York.
Por Naomi Klein – Commondreams
Foi uma honra, para mim, ter sido convidada a falar em Occupy Wall
Street na 5ª-feira à noite. Dado que os amplificadores estão
(infelizmente) proibidos, e o que eu disser terá de ser repetido por
centenas de pessoas, para que outros possam ouvir (o chamado “microfone
humano”), o que vou dizer na Praça Liberty Plaza terá de ser bem curto.
Sabendo disso, distribuo aqui a versão completa, mais longa, sem cortes,
da minha fala.
Occupy Wall Street é a coisa mais importante do mundo hoje[1]
Eu amo vocês.
E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta
“eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do
microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem
a você, só que bem mais alto.
Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós
nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que
está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que
não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que
querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita
gratidão.
Se
há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas
estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis
aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas
pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os
serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder
corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo.
Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é
algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de
Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.
Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia,
França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise
começou.
“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos
comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês
demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam
aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”.
Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os
assim chamados protestos anti-globalização que conquistaram a atenção do
mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento
descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das
corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o
movimento dos movimentos”.

Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.
Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.
O Ocupa Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês
não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é
sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é
fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem
como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não
têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a
tempestade, eles são alagados.
Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são
compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam
sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita
fé que isso acontecerá.
Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se
comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia
as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão
desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e
outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da
polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o
apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria.
Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos
o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era
baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil.
Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.
Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria
um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os
padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e
que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com
vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema
econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos
nos países ricos.
Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de
gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e
esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.

A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta. A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.
A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta. A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.
Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios,
que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em
1999, e daí construir o movimento rapidamente.
Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para
baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o
espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos
comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que
é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o
tipo de sociedade de que precisamos.
A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o
desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma
sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do
que a Terra consegue aguentar.
A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso.
Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar
ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não
estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja
importante.
Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa
mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a
mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos
urgente por ser difícil.
É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se
alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham
informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e
treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu
me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem
o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma
afirmação profundamente radical.
Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:
Nossas roupas.
Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.
Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.
E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:
Nossa coragem.
Nossa bússola moral.
Como tratamos uns aos outros.
Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas
mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este
movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam
sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores –
como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de
contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.
Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam
apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos
tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado
durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige
nada menos que isso.
Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ela é. De verdade, ela é. Mesmo.
[1] Discurso originalmente publicado no The Nation, emhttp://www.thenation.com/
Fonte
http://www.commondreams.org/
