Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados."

(Millôr Fernandes)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Hegemonias e sobrevivência

Terça, 14 de junho de 2011
Por Ivan de Carvalho
Em entrevista à Tribuna da Bahia, a deputada Alice Portugal, do PC do B e aspirante oficial de sua legenda à prefeitura de Salvador, adverte, logo de início, ainda que botando uma enorme trouxa de panos quentes, que “o PT tem que começar a entender com naturalidade que seus aliados existem”.
 
    Isso é mais ou menos a mesma coisa que muitos políticos de vários partidos aliados – e até, como ironia, de partidos da oposição – têm dito em diversas ocasiões e sobre diversos assuntos a respeito do comportamento do PT em âmbito nacional e, quanto a alguns episódios, também no âmbito estadual baiano. O PT é atualmente – e isso é fruto de seu esforço por várias décadas e pode ser considerado, sob alguns aspectos, não necessariamente todos – um partido orgânico.
 
    O PT é o único grande partido orgânico do Brasil. Dos médios, nenhum. Só há um outro partido orgânico, o PC do B (da categoria dos pequenos, embora não dos micro-partidos), com um forte sentido de organização, debate interno para decisões a que todos devem aceitar, contribuições financeiras dos filiados em posições que ocupam por causa do partido e um forte sentido de hierarquia.
 
Mas há, entre outras, uma diferença formidável entre o PT e o PC do B, este, historicamente, o mais antigo e fiel aliado do primeiro. É a questão da hegemonia. O PT é atualmente um partido com notória pretensão hegemônica e em luta para alcançar com celeridade esta posição no país e em cada Estado da Federação. Daí, por exemplo, sua sofreguidão em recuperar a prefeitura paulistana e tomar dos tucanos o governo do Estado de São Paulo, o que seria um imenso passo para a hegemonia no âmbito nacional. Pena que seu principal nome para disputar o governo acaba de receber o certificado de inviabilidade – Antonio Palocci. Mas ainda há replicante Mercadante e Marta Suplicy, a eterna suplicante.
 
O PC do B, historicamente, pelo menos, sempre foi chegado a uma hegemonia. É uma característica natural ao marxismo-leninismo. Mas a grande diferença em relação ao PT – que não é um partido marxista-leninista, embora abrigue “tendências” marxistas das mais variadas vertentes – é a de que, no momento histórico brasileiro, não há lugar para o PC do B sequer sonhar com hegemonia, seja em âmbito nacional, seja em qualquer uma das unidades federadas. Assim, a característica hegemônica deve ser retirada do currículo do PC do B enquanto as condições políticas objetivas da sociedade e do Estado brasileiros façam dela uma hipótese impossível.
 
Bem, voltando à candidatura de Alice Portugal a prefeita, admite a deputada na entrevista que ela e seu partido desistam da candidatura (que chama de pré-candidatura, por causa de certas frescuras da legislação eleitoral brasileira) “só se houvesse um fenômeno intransponível de uma vitória anunciada da direita, do retorno do carlismo, mas esse não é o cenário.” E completa: “Portanto, a nossa decisão é manter a candidatura até o fim e quem tocar o coração do povo no primeiro turno, com certeza, terá o apoio dos outros”.
Os outros, aos quais Alice Portugal se refere, são os candidatos a prefeito de partidos inseridos na base do governo. Candidaturas majoritárias desses partidos, ou de vários deles, fazem parte de uma estratégia de sobrevivência. Eles entenderam que precisam disputar o campeonato se quiserem ter torcida (eleitores, votos). O campeonato está nas eleições majoritárias, a mola para impulsionar as candidaturas às eleições proporcionais – em 2012, para vereadores e em 2014, para deputados federais e estaduais.
 
Até o grandalhão PMDB já mostra fortíssimos sinais de que entendeu isto, daí seu esforço para disputar com Chalita a prefeitura de São Paulo e com Paulo Skaf o governo paulista.
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Este artigo foi publicado originalmente na Tribuna da Bahia desta terça.
Ivan de Carvalho é jornalista baiano.